A TEATRALIDADE DO MUNDO

Antes de iniciar o texto, um esclarecimento quanto ao termo teatralidade: tomo o termo com o significado de algo estrondoso. Aliás, não é bem esse o sinônimo que eu queria dar. Talvez chamativo, ou quem sabe artificial. Bem, talvez seja melhor começar logo o texto, um outro sinônimo mais fiel aparecerá, assim espero.
Tive a idéia de falar sobre a teatralidade do mundo após assistir ao filme “Superman – O Retorno” (podem rir, não tem problema, sou fã mesmo, desde criança). Críticas a parte, o filme é a pura representação do mundo teatral no qual vivemos hoje.
Dentre as muitas cenas que deixa isso bem claro, cito a primeira, que marca o retorno propriamente dito do super-herói. Nela, Superman salva um avião que vem caindo em parafuso (adivinhem quem está nele? Lois Lane, claro) e “estaciona” a aeronave no campo de um estádio de basebol, lotado, em pleno jogo. Depois do feito, a imagem do herói norte-americano é então estampada na tela do estádio, e em todas as televisões dos Estados Unidos. Uma salva de palmas recebe o herói depois de cinco anos de ausência (tempo em que passou fora da terra, na busca de seu planeta, já destruído). E a imagem, a meu ver ridícula e até patética, do Superman dando um “alozinho” para todos, mostra o quanto o filme é teatral, e o quanto reflete o mundo de hoje.
Façamos uma comparação com o filme “Superman I” (filmado em fins da década de 70). Na primeira cena de aparição do super-herói, Lois Lane está num helicóptero em vias de despencar do terraço do prédio do Planeta Diário. O salvamento se dá sob os olhares do público, mas à distância, lá embaixo. Superman, após segurar a aeronave com uma das mãos, leva-a para o próprio terraço do prédio, longe do público, no qual há apenas ele próprio, Lois Lane, e três ou quatro funcionários, que prestam a primeira assistência a ela e ao piloto desmaiado.
Essa necessidade de querer aparecer, de ser chamativo, estrondoso, TEATRAL, é própria do mundo pós-moderno. Nas artes, acontece de forma semelhante: veja a arquitetura, por exemplo. Ela está voltada para chamar a atenção do público. Formas alongadas e incomuns, cores, acessórios chamativos, luz em demasia, brilho intenso (Observe o prédio da Honda, perto do hospital de trauma). Como se fosse uma pessoa a gritar, numa espécie de palco, para todo mundo ouvir: Ei, eu estou aqui!!!Olhem para mim!!! Vejam como sou bonito.
Se você já se sentiu atuando como tal, não se envergonhe, pois ninguém está imune à influência e à apelação dessa atitude teatral diante do mundo. Essa coisa forçosa de se destacar em meio a tanta coisa parecida, igual, é puro ato reflexo. A entrada triunfal, o “gran finale”, as frases feitas e de efeito, tudo isso é o arsenal que se tem para se causar estrondo.
A era pós-moderna em que vivemos, creio, é uma fase de transição (que venham as críticas). Quando essa atitude teatral tornar-se o comum, o corriqueiro, o usual, o lugar-comum, e por que não dizer cansativa, será iniciada a mudança para um outro paradigma, que creio não estar muito longe, pois já causa uma certa angústia toda essa apoteose. Ótimo, achei o sinônimo o qual buscava tanto para a tal teatralidade do mundo: vivemos numa Apoteose.