VAIVOLTANDO

Confesso que precisei do mundo. Tive que, por fim da força, abandonar um mundo alternativo que havia criado como último refúgio de uma vida que não dava certo. Para mim, os livros me bastariam. Escrever me bastaria. Nada! Um dia pensei comigo qual a utilidade da literatura. A contradição de estar vivendo, e fazendo, algo que julgava não-útil foi bomba atômica no quintal de minha casa, que ruiu, em parte – e o que havia sobrado eu mesmo me encarreguei de derrubar.
Arrumei emprego, fui estudar pra concursos. E embebido nesta verdadeira onda (ideal de vida segura, dinheiro certo fim do mês), pensei ter achado o “útil” em mim no mundo, afinal, “a gente espera do mundo e o mundo espera de nós”. É essa coisa de busca incessante que se aguça nos meus momentos de crise existencial.
Transitei por esse mundo velho que se fez de novo, mas acabei como os românticos: saudade de um tempo passado, perdido. O pêndulo – metáfora do vai-e-vem dos estilos literários – se apossou de minha vida. Reparo – constato – que ainda não sei de minha utilidade no mundo, ainda não sei. E na verdade nem quero aqui solução: “eu dou plantão dos meus problemas que quero esquecer”.
Enfim, volto, sou de novo o eu que desejei tanto em tempos atrás, que sei, outras crises de utilidade me virão ainda mais tarde, mas não agora. Agora, espero compreensão, de mim mesmo pelo menos, a busca pelo trânsito. Voltei a ler com estilo e dor: Clarice Lispector. Ainda meio vacilante, perdendo os contornos escondidos nas palavras obscuras de sua literatura, nervoso por não compreender bem o que há por trás do dito. Como se estivesse parado em acostamento, torno ao engarrafamento desses tempos, à velocidade dos tempos hodiernos. Ao menos nisso acho que tenho em mim parte do que se diz pós-moderno.
12 Comentários:
Em primeiro lugar, desculpas pelo lapso de tempo que, por minha culpa, deixei o blog passar.
Acredito que nossos textos estão tendo a cara dos momentos por que cada um passa. Tenho lutado contra isso, queria produzir textos mais amplos, mais não obtive bons resultados.
Falta pouco e o blog completará um ano!
Belo texto, rapaz! As imagens construídas funcionam muito bem.
"Buscar" é, sem dúvida, a certeza estável para mentes inquietas, para quem não se compraz com o óbvio, meu amigo.
Quanto a sua utilidade no mundo, também não, pois ninguém sabe, por mais que acreditemos ter a verdade a vida(?) sempre nos prega peças. Cansei de tentar achar respostas prontas, prefiro aumentar o número das perguntas e viver(?)...
Quanto a Clarice, nunca tinha lido ela de forma sistemática, como precisei ler agora pouco na facul, foi muito bom, as processos intertextuais dela nos fazem repensar muita coisa!
Se "há um incêndio sobre a chuva rala", como diz Cazuza, o que fazer? Não sei... mas quero estar na busca sempre.
Parece que foi ontem que nós três nos encontramos para pensar sobre o blog... quanta saudade, mas também quanta experiência trocada...
Vamos continuar transitando...
Quanto a Clarice, digo que prefiro seus contos. Não sei o que é, talvez não tenha me acostumado a sua escrita em Romances. Só acho que nas estórias curtas, ela consegue algo de completo.
Léo, é você?
heheheheh!!!!
AHHH
Desculpa, Jansen, eu nem percebi que estava logado no meu blog.
Xiii
Sou eu mesmo, cara.
Quanto a Clarice, ao estuda-la percebi que ela usa trechos de seus contos e crônicas em seus romances, estou tentando entender isso, ou melhor o uso desta intertextualidade.
A primeira resposta seria para dar universalidade às suas indagações, pois, por vezes, um mesmo texto é "dito" por um home, outra por uma mulher...
Abraço
Mas você acha que ela "se sai melhor" nos contos ou nos romances? Nâo sei, é uma pergunta vasta, e ao mesmo tempo uma primeira impressão, não fundada, baseada na intuição. Só acho que ela domina melhor a narrativa do conto.
abração!
Romance, só li "A hora da estrela", (que adoro!!!)portanto não posso ter uma opinião melhor, apesar de ter folheado (com interesse) outros romances, mas... você já leu as crônicas? Adoro, cara!!! e os romances, ou seus embriões, estão lá!!!
Abraço.
PS: Mamãe está aqui esta semana comigo, IMAGINAAA!!!
Oi! :)
Andei sumida, mas estou viva... Viva! hehehe
Sobre Clarice: eu não conheço tantos contos, mas ainda assim arrisco dizer que, na minha opinião, ela é melhor em romances.
Os personagens de Clarice são tão densos que dá vontade de passar com eles um pouco mais de tempo do que passaríamos em um conto, mas um pouco menos de tempo do que passaríamos em um romance longo.
Acho a literatura dela certeira, perfeita. É quase como um dedo na ferida sem se importar em sarar depois.
Bjim nos dois...
Silvia.
Bom, posso estar tirando conclusões precipitadas sobre Clarice "romancista". É que eu estava tão afastado de leituras, como disse, estava parado em acostamento, que dói ler e não entrar de cabeça em sua literatura. Estou lendo "Perto do Coração Selvagem", e estou tendo muita dificuldade em compreender o tal romance.
Eu li já uns bocados de contos dela, e acho-a uma das melhores contistas que já li, em minha resumida galeria.
Não poderia deixar de registrar que hoje, 02/06/2007, este blog chega a seu primeiro ano de aniversário. É apenas uma constatação, interessante, que três pessoas consigam manter um ambiente de troca de experiências vivo por este período, num mundo em que o descartável é a ordem.
Abraços a todos os que lêm o blog!
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